




Noite
Fernando
Augusto Filippi
Todos estão dormindo
A sala, antes extrovertida, converte-se
novamente no deserto ébrio da solidão
O silêncio se faz presente, e a noite faz
a cama das imagens embebidas de sonhos
Debruço-me sobre o piano,
enquanto minhas dores rasgam
os véus apáticos do cotidiano
Posso gritar aos céus os meus quereres,
de dentro de meu poço de anseios infinito
Permito à lua
conduzir as minhas mãos,
que, de tão distantes, diluem-se no rio dos
meus pensamentos, loucos viajantes
As lágrimas, antes envergonhadas,
libertam-se, lavando as teclas docemente
nas esteiras da redenção
Torno-me inteiro e indistinto
da vida que,
na categoria de detentora soberana deste momento,
dispensa-me de assinar as guias diárias da hipocrisia
Um músico, apenas
Como uma criança, permito-me
brincar
com as cores das estórias que me habitam,
sem a triste presunção de registrar todas
os sons no meu caminho
Consigo fechar os olhos
e tocar uma única nota,
que me remete, num só movimento, à eternidade
da luz estelar e ao encanto passageiro de uma flor
Redescubro meu sorriso, enfim
Sou livre.