




A
intentona da criança
Fernando
Oliveira
Rasgada como um farrapo...
com ele coberto
a criança farrapo só espera benções... gorado o pão
as mãos são cotos informes... que não esperam outras mãos
mãos que lhe subtraíram do mapa... o ninho prometido
que a escravizam no seu próprio quinhão... escamoteado
a criança espera um copo cheio de caridade... vidro areento
a escritura dos seus direitos... universais e canónicos
quando pede mamas de ovelha... mãe humana
recebe o pó inspirado na autocracia dogmática
e promessas de paraísos esfomeados... falho verbal
quando o inferno a assola... no simples respiro
Basta... diz o abrolho
de verde-mar... olhar aguado
A intentona é necessária... a criança fará tremer o mundo
Com os seus passos descalços...
nas avenidas mal sorvidas
o adulto vaidoso... é por demais cobarde no seu conforto
o adolescente dimensionou um espaço de entremeio
onde não pende para lado algum... bebe a sede do momento
a criança desfila na cidade... os gritos são folhos acerbados
malmequeres nos olhos desastre... inundam as valetas
o probo junta-lhe lágrimas salgadas de arrependo... olha o chão
a maré brava juventa.. arrepia a focinhada nojenta... dos que são
ases e valetes... que cobrem com horrenda mão... os trunfos
vinte e quatro versos... são as horas do dia da insurreição
a criança ata mão com mão... escorre nas nossas consciências.
