Gaveta do Autor - O portal do escritor na rede

Avenida
Marília Gonçalves

 


Fui ainda há pouco a Lisboa
pensando matar saudades
A vida não se fez boa
a quem fugiu prás cidades

As saudades não se matam
porque logo nascem mais
mas as vozes nos desatam
e fazem de nós pardais

Estou na Baixa, e os meus olhos
não vêem prédios nem chão
só vêem dor, mar d' escolhos
a esbarrar na multidão

Lá anda gente a correr
pela vida aos tropeções
lá estão outros a vender
miséria em sonho aos milhões

O pobre pé, descalçado
não incomoda ninguém
tão visto já, resfriado
e nascido de uma mãe!!!

Não me quero ir já embora
tenho ainda muito que ver
mesmo que me doa agora
eu não quero me esquecer

Que se nascemos com olhos
é para ver as montanhas
de injustiças e de abrolhos
que ao homem rasga as entranhas

Lá vai o miúdo roto
leva as mãos nas algibeiras
com ar gaiato e maroto
dizendo duas asneiras

Mas dentro, lá bem no fundo
andam versos a nascer
e é por ser filho do mundo
que anda por aí a sofrer

Que essas palavras que larga
a desafiar a população
são feitas da dor amarga
que mesmo pequeno passa

E agora aqui ao lado
está um ceguinho a tocar
a pensar também que é fado
andar com fome a cantar

Agora... aqui vou eu...
aqui está Martim Moniz
quanta gente a quem mordeu
outra rica, má feliz!

E os meus passos no dia
feito da noite brutal
vão comendo poesia
no homem que vive mal

Enquanto sigo doída
a olhar o temporal
vou subindo a Avenida
mas firme, no vendaval!

Já cheguei ao Intendente
e por entre a gente séria
quanta infeliz que mal sente
que não tem mais que miséria

Ai ó senhoras honradas
que me apetece insultar
as vidas despedaçadas
nascem do vosso luxar

Ás que vivem sem sentir
ás que choram como nós!
Se passarem a sorrir
as mais perdidas sois vós!

Porque quem vive diferente
se a porta não viu fechada
prá vida passar decente
não lhe custou mesmo nada!

São filhas da noite escura
dum estado podre de velho
e esta ferida que ainda dura

é o seu mais fiel espelho

Mais uns passos, finalmente
eis chego à Praça do Chile
ó povo depressa, ó gente
façamos mais um abril!

M

Início

Verso

Prosa

Colunas

Notícias

Sugestões

Links

Como publicar

Contato

Copyright © 2007 por
"Ana Laux"
Todos os direitos reservados
gavetadoautor@uol.com.br