




Blues
de Londrina
(sete cartões postais de Londrina)
Marcos
Hidemi
1
Esquina que sabe a Ballantine's,
Cerveja, vodca, vinho;
Encontro de antigos jovens,
Imberbes boêmios de longa data,
que fazem ponto diante do Valentino
2
Velhas putas, na tarde
barulhenta de pombos,
Exercendo, a troco de migalhas,
a antiquíssima profissão,
Nessa praça que é puro abandono,
sujeira, escombro: _ Rocha Pombo
3
Pescadores na tarde
insalubre,
Sob a canícula, mais tristes do que Jó,
Estapeiam-se, lutam contra o
mosquito da dengue no Lago Igapó
4
Bússola que só aponta
para o norte
Onde as abelhas vivem em colméias de insultos
Quando é que será levantada
a bandeira da independência
Tão almejada, hein
Cinco Conjuntos?
5
Que tristeza que me
dá,
Ás seis horas da tarde, vê-los,
ó ônibus insensíveis,
A levar no seu bojo formigas oprimidas
pelo peso do cotidiano, saídas aos
magotes do Terminal Urbano
6
A pátina amarelenta
do tempo
paira nas velhas calçadas,
No casario de madeira, imunes ao
crescimento da cidade insone,
Que ainda sobre a invisível linha de trem
Se divide em dois hemisférios:
o sul maravilha, o norte pobre da Vila Casoni
7
Quanto medo nas esquinas,
nas vielas, nos becos,
Quantas madrugadas
assustadoramente vermelhas,
Quanto sangue tingindo
As fotos dos jornais, o grito dos
rádios, as matérias das tevês,
Por causa do círculo de miséria
e terror dos tantos São Jorges,
Caixas Econômicas, Joões Turquinos.