




Voumembora
prasareias
Marcello
Ricardo Almeida
Regressei à fazenda
(era tarde!)
as palmeiras
tinham adormecido;
os cajueiros,
acordados ainda,
todos, em coro,
falaram comigo:
Todas as águas
da fazenda secaram
Onde estavas, ondetavas,
excelente amigo?
Muitas
folhas davam
cambalhotas no ar,
parecendo palhaços
sob lonas de circo;
no terreiro, a velha
fumava cachimbo
e tangia as faíscas
nos vestidos de chita;
a panela de barro
no alpendre antigo
da casa velha acolhia
um leite dormido
Ouricurizeiros
em bandos,
todos amundiçados,
espalhados na fazenda
feito sérios soldados,
agitavam-se sobre as areias
brancas do curral,
onde a vaca Teresão
lambia a cria,
enquanto o touro Juvenal
fazia banzé, carnaval
Do terreiro a velha gritava,
pitando seu cachimbo:
Queta!
queta, Juvená!
deixa Teresa limpá tua fia!
As muitas pedras
da fazenda formando
um castelo encantado
A raposa choca
do focinho longo
farejava nas locas de pedras
camundongos: seu manjar
O pé de ingá confabulava
contando piadas à serigüela,
que não se agüentava ela
De longe,
os relâmpagos
anunciavam água;
os bichos, de susto,
latiam, mugiam. E nada.
Deixei a fazenda,
deixei um recado:
Tantas cercas tortas
de arames farpados;
engasga-se quem comê-las
Anuíram os soldados
As palmeiras se acordaram
mas antes sonhavam; sonharam.