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Dor de um visionário
Sérgio Lopes

 


I

Há um buraco negro no peito meu
De profundeza humanamente indescritível
A atrair em seu vácuo absolutamente incognoscível
Apenas os destroços vagabundos que me deu
Um cosmo somente pelo caos estruturado,
Pois que no presente como no passado,
O natural se me fizera sempre implausível
Alheio às leis da vida estando eu

Não poderia nunca boca alguma humana
Descrever o fundo silêncio que me toma;
Que não pode a língua humana dar forma
Ao que lhe foge à compreensão leviana.
Desviem daqui os afortunados o olhar farto,
Que a lânguidos e saciados nada diz tal fardo;
A solidão não é dor de alma morna,
Mas do sensato a paga tirana


II

Há algo morto em meu sorriso,
Que deveras, não ri mais;
Há algo torto onde eu piso,
Na arcada um dente siso,
Qualquer coisa a evitar-me a paz.
E eu, que da razão tanto preciso,
Onde a procuro não diviso
Senão o que a desordem me traz

Como traz o cego consigo a certeza
De nunca em vida ter da cor o conforto
Traz aquele cuja mente a clareza
Lhe revela o horror como a beleza
A convicção de nunca encontrar porto
Na dormência à ignorância presa;
Pois ao lado do leito a vela sempre acesa,
Vela sempre, em todo âmago absorto


III

Vede, pois, a sina de todo visionário,
Que nas terras que celebram a incultura,
Tendo todo o céu como sudário,
Encontram em vida a própria sepultura

Grava, pois, a sangue o teu diário
Escarra sobre os séculos o teu calvário
Mancha e delata essa mundana moldura.

S

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