




Um
apê financiado pelo BNH
Marcello
Ricardo Almeida
É tédio? É torpor? À
meia-noite
escutam-se ruídos na casa ao lado
Depois, silêncio tétrico, absurdo
Um homem triste, na varanda, fuma
seu último cigarro. Sua mulher só,
desesperada, lamenta na cama nua
Ele - um farrapo humano desiludido;
ela - uma tristeza fria desiludida.
Ambos com filhos pequenos e ainda
muitas dúvidas; talvez desempregados
Sonham
a história da família; sonham
com um passado agora apodrecido; só
lembranças em fotografias perdidas
em algum móvel da casa apertada
Ela levanta-se à meia-noite infeliz,
tira a poeira dos móveis todos,
peça por peça, minuciosamente,
com o cuidado de uma mulher doente.
Ele desce as escadas, passa, sente
o desespero abraçando a sua moradia.
Tenta
gritar. Sufoca o grito de novo
com a fumaça de outro cigarro. E vai
pelas ruas desertas de cachorros,
olhando palmeiras, sombras. Nada mais
Uma família nuclear e pós-industrial
não sobrevive pelo estresse, álcool,
tabaco, sem dinheiro e sem emprego
Ele reclama do amor dos filhos;
ela reclama de seu amor por ela
Ambos se perdem no apartamento
e se
distanciam os seus pensamentos:
fogem através da janela acortinada
Na parede, uns quadros sem valor;
no chão, tapetes manchados de ciúme.
Uma vida deveras marcada a ferro e fogo
pela marca indelével das máscaras do medo
Essa família só de aparências vive;
com cartões de crédito para quitar
as prestações do carro vencidas
e um feio apê financiado pelo BNH.