




Acabou-se
o que era doce
(microbiografia de vertebrados e invertebrados)
Marcello
Ricardo Almeida
A rua do poeta é a rua
das Américas, 29
Onde
o gafanhoto se apaixona
pelas vastíssimas plantações,
e o passarinho se apaixona
pelo ninho da passarinha
Onde
a lavadeira
se apaixona pelo sabão,
e o beija-flor
se apaixona pela flor
Se o
vira-lata
se apaixona pela lata,
se o pirilampo
se apaixona pela lâmpada;
mas a
primavera nem chegou
Mas o caranguejo já se apaixonou
pelo espelho. E as formigas
se apaixonaram pelo formigueiro
É na
rua do poeta
onde as mulheres vêm sentir
arroubos de taquicardia
É nos
cabelos da vizinha
que o poeta constrói escada
e vai pelo carretel de linha
De tão
doce a paixão
quem se apaixonou
acabou-se no que era doce
A flor
do beija-flor se despetalou,
a lâmpada do pirilampo explodiu,
o espelho do caranguejo se quebrou,
o milharal do gafanhoto definhou,
o ninho do passarinho ficou feio,
o formigueiro fora atacado pelo tamanduá,
a lata do vira-lata se foi no caminhão,
e o sabão da lavadeira se acabou.