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Poética de minhas águas
Paulo Parada

 


Era uma tarde triste, com cheiro de morte
A chuva trazia não só as almas dos inocentes
- Também trazia o ódio dos guerrilheiros

Eu fui o primeiro a escutar tiros traçantes
De pessoas pobres de espirito e ignorantes
Na janela, toda a inútil paisagem da Bahia de Guanabara
E no quarto, um infeliz teclado, pedindo para voltar...

Não era mais um Rio de Janeiro do Vinicius, de Bossa, Samba e Tom
Bom apenas para quem possui dinheiro e compra a segurança
E mesmo assim ainda não adianta

Meu peito chorou
E nesse momento, a música disse assim:
Venha compor, pois mesmo com tanta dor, eu lhe ajudo

Meus dedos encostaram nas teclas de meu instrumento,
E minh'alma encostou na saudade e sofrimento
Contava os minutos e os dias
Para enxergar o infindo olhar de Guaíba,

Naquele instante, minha decisão errante de partir culpou meu coração
E até a poesia dizia que meus versos não estavam lá
O eu-lírico necessitava da denominação feminina de tantas águas
E como um homem sente saudades da mulher amada
Não chamei Guaíba nem de rio, nem de lago, mas sim de Rainha

Que saudades da sensação de segurança
Do poder viver bem andando pelas noites e vilas
De ouvir e dizer Tche e Bah
Então dei-me conta que tão pequenas coisas faziam toda minha felicidade

Olhei pra mim mesmo e encarei a verdade...
preciso voltar pra não morrer de amor
Eu sabia que minhas águas estariam la sorrindo com o mesmo sol vermelho Aquele vermelho querendo beijar o rio
e eu morrendo de ciúmes por não presenciar tal espetacúlo

Pensei até no fato de estar louco,
Pois ruas tão comuns me faziam toda falta:
Que saudade de descer na salgado, caminhar toda rua da praia,
só para ver o pôr-do-sol no Gasômetro
Precisava urgentemente voltar...

Peguei com tanta vontade o primeiro vôo,
E na volta para casa, dei um jeito de olhar pelo quadrado do avião
Rasguei e expeli do peito todas as mágoas,
Olhei a usina, dei um sorriso, chorei um pouco
e fiquei feliz por voltar para Minhas Águas.

P

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