




As
águas da noite
Márcio
Almeida
20% do beijo, meu amor,
são água,
úmido desejo a ensalivar os cristais
da boca - esse mar que enxágua
no prazer os rios férteis dos mortais
A vida é água na nascente
que sua bolsa
vai estourar na história. Líquida ou preta,
Bic azul ou Diplomática, a escrita dessas lousas,
minha louça, são aquáticos delírios de caneta
Tudo é água quando o
amor faz suar a cama,
o termômetro do verão, a fornalha em cor debrum,
é o molho o que lhe faz mulher ou dama,
ou a água de cheiro do seu corpo quando nu
Cercado de águas por
todos os lados, amor é ilha,
e deixamos que o quarto naufrague nas ondas dos cabelos
cheias de oásis, de dunas e de trilhas
encharcando o cio com a sede dos camelos
E quando morrer de amor
o amor que entornou vida
pelos poros dos lençóis e a barra das anáguas,
nós iremos semear o pão do corpo com a lida
para as noites de lua colher com as suas águas.