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Transição
Remisson Aniceto

 


É tão fria a cova e tão escuro o horto
onde depositam meu corpo doente!
_ Como a cova é fria se o corpo é morto?
A partir de agora só a alma sente...

Ah! Esta cama rude onde estou deitado
e este quarto escuro e tão bem fechado!
Tento levantar, mas estou tão cansado...
Que rumor é esse ali no quarto ao lado?

Há um jardim bem perto: sinto o odor das flores
Quero levantar, mas estou tão cansado...
Estou tão cansado mas não sinto dores
E o rumor aumenta ali no quarto ao lado.

_ Desçam o caixão! _ diz alguém lá fora
Quem morreu enquanto estive dormindo?
Bem perto da porta ouço alguém que chora,
lamentando a sorte de quem vai partindo

Quero levantar, faço força tamanha
mas tenho as mãos inertes e o corpo duro
Agora o padre reza numa língua estranha,
enquanto fico preso neste quarto escuro

Está caindo terra sobre o telhado
Parece que o mundo está desabando...
Falta-me o ar neste quarto fechado
e lá fora há uma multidão chorando

Sinto um tremor leve, um breve arrepio...
Já quase nada mais estou sentindo
Por que não me tiram deste quarto frio?
Alguém morreu enquanto estive dormindo

É tão fria a cova e tão escuro o horto
onde depositam meu corpo doente!
_ Como a cova é fria se o corpo é morto?
A partir de agora só a alma sente...

R

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