




A
sombra, o vento, o escuro e o menino
Manoel Vicente
da S. Neto
A sombra vai se encolhendo
esgueirando-se da luz que lhe feriam seus olhos castanhos,
A luz lhe ardia os olhos e os faziam pegar fogo,
a luz em seu corpo eram como chicotadas
de uma penitência estranha e cruel
A sombra ia de encontro a ele como uma velha amiga,
como uma amante, uma eterna namorada
O escuro era como um afago tenro e viscoso,
um invólucro para protegê-lo da claridade das lâmpadas
que iluminam nosso lado mais escuro
O escuro era um descanso para seus olhos,
ele não tinha medo, o escuro lhe era familiar
como um pai que nunca teve
Ele sabia que os fantasmas embaixo do assoalho eram ratos,
sabia também que os estranhos ruídos vindos do quintal
eram os gatos a revirar o lixo depois de terem voltado da boêmia
E que o estranho assovio que batia na janela
fazendo ressoar por toda casa em um eco ensurdecedor
chamando seu nome era apenas o vento solitário
procurando alguém pra conversar.