




Estuário
da esperança
Jessé
Barbosa de Oliveira
A bruma do fracasso sustém e pavimenta a estrada do meu cotidiano
Contemplo quase inerte o curso da vida fluir bem próximo de mim,
embora nunca consiga de fato embarcar em seu convés
Não, não que eu tenha a pretensão de intendê-lo,
domar o seu leme ao meu bel-prazer, não!
Apenas queria estar presente a todo o roteiro da viagem:
do começo ao fim
Mas o
quase, o quase sempre impertinente
não me deixa nem sequer partir
Então, engendro formas de lográ-lo;
mas lá está ele, toda mão, um passo a frente:
a me comediar caudalosamente
Ele me
alimenta a idéia, me faz erigir templos indicativos:
castelos de certeza. Todavia, toda feita, qual não é a minha surpresa
Descubro-os matéria inerme, insólida, tênue
Não, não são alcáceres de rocha os meus castelos
O são de areia. Areia, cujo leve sopro despretensioso
faz com que ela se desmanche inteira
Sim,
depreendo claramente agora
O meu caminho é água em ebulição:
ele ferve, ferve, ferve até o sonho formar vapores,
que se dispersam para longe, longe do alcance da minha tátil concreção
E a estrada: a estrada se transmuda plenamente
em vácuos inteiros de asfalto da saudade daquilo que quase houve
Sim, ela se converte na malha viária da abortagem:
sim, me refiro áquela traiçoeira das engrenagens da desilusão!
