




Slaves
of the final twilight
Jessé
Barbosa de Oliveira
Sim, estou convicto de que esteja vendo a luz da definitiva supernova de
nós cada vez mais sensível,
mais próximo. E a seguir seu rastro, interstícios edazes, loucos
para degustar, desde já, a nossa já tão sucumbida, até putrefada carne
Porém
seu aspecto sereno não revela nenhum traço de fome aguda. Não, ao
contrário. O que parece é que talvez sejamos nós que estejamos a evocá-la,
queiramos desesperadamente que ela venha, nos invada e seja bem-vinda, enfim,
a nossa generosa casa, apesar de seus muitos dissabores, ainda alegremente
altaneira, altiva, galharda
Pesa-me
sobre os ombros do cérebro tal impressão,
sobretudo quando contemplo desejos bélicos e dividendos em franca expansão
seqüestrarem-nos as mentes, aprisionando-as
em calabouços temerários do egoísmo, por sua vez, repousado em nosso magnífico
computador congênito: vivente, vívido, submerso em vagalhões de vil-metálica
obsessão, vil-metálico vício
Esta
impressão pesa-me sobre os ombros do cérebro,
principalmente quando percebo os sonhos de linearidade
se esvaírem ao seguir o curso do estuário da sofismaticamente feliz realidade
burguesa telefabricada
Sim, esta mesma que diz que a felicidade suprema repousa, impregnada; não
na interminável fileira linear das mãos dadas, mas, unicamente, nos alicerces
da assimetria hierarquizada
Sim,
sinceramente, sinto a certeza do apagar da existência
pesar-me sobre os ombros do cérebro
Sim, sobretudo por ver, perplexo, o caminho no qual estamos trilhando: a
via do nosso sol a subtrair-se, a tresmalhar-se do rebanho, a esmaecer-nos
drasticamente a luz do corpo. Finalmente a desentegrar-nos a matéria,
sem chance de retorno
Sim, sinceramente, vejo o vácuo a nos varrer do mundo
Vejo-o reduzindo-nos a menos que átomos, a menos que poeira, a menos que
tudo, a menos que o nada presente, a menos que o nada sequer existente
Enfim,
a menos que a lama mais sórdida da subsistência em que,
inconscientemente presos, dia a dia, apodrecemos por inteiro
Vejo, então, ele rir vividamente quando constata que não há nenhum outro
ser extraordinariamente pensante, além dele, em toda vastidão do universo,
então, imerso na refulgência de seus obscuros buracos, corpos opacos, estrelas!
Estrelas a sorrir, a se obliterar, a se acender sob o sempre açambarcador
espaço enigmático e sôfrego por escapar da sombra de seu evo insuplantável!
