




Foto: Divulgação.
xxxxxx Existem
poetas em todo lugar. Nas esquinas das grandes cidades, nas escadas rolantes
dos shoppings e se acotovelando nos balcões dos bares. No semáforo, sempre
aparece um querendo vender seu último livro. Último não, o mais recente.
Se as editoras não os recebem, eles se auto-publicam, e a poesia não fica
na gaveta.
xxxxxx Embora se esbarre com poetas facilmente por aí, não é fácil encontrar poetas. Eles se disfarçam em pessoas comuns e onde menos esperamos, lá está ele. Ou ela. Aliás, as poetas se disfarçam até melhor: são mais esguias, discretas, serpenteiam ao nosso redor. Silenciosamente.
xxxxxx É assim, sem fazer alarde, que uma jovem poeta paulistana tece a sua carreira literária. Com vinte anos, em 1999, Mariana Ianelli lançou seu primeiro livro e de lá pra cá, pariu mais três, um deles a ser lançado este mês: Fazer Silêncio. O intervalo da gestação é regular, não passa de dois anos. Tempo para os frutos mostrarem a que vieram. E esse certificado de permanência que o tempo confere às coisas imprime delicadamente uma tatuagem à poeta Mariana: doce e firme nos alicerces de seus poemas, pensativa e emocional no diálogo interior, delicada e pungente em versos-navalhas. Não foi à toa que Ignácio de Loyola Brandão mencionou na apresentação da estréia da moça um certo "olhar de pólvora". Aliás, o olhar meigo (quase solidário) que você vê na foto, desmancha-se em uma série de ambigüidades quando o leitor desvia os olhos para o trabalho da moça. Surpresas...
xxxxxx Formada em Jornalismo, Mariana Ianelli persegue - no momento - parentescos e aproximações entre a filosofia e a poesia. O estudo compõe a espinha dorsal de sua dissertação de mestrado em Literatura e Crítica Literária. Se ela vai conseguir desenterrar essa árvore genealógica não se sabe. Mas a certeza de que a literatura nacional tem uma poeta madura, consciente e produtiva já existe. Quer uma amostra do que nos corta e ainda mantém nosso sorriso?
O branco há de me cobrir.
Nenhuma ótima filosofia,
Nenhuma música para essa vez.
Os bárbaros conversam comigo do poço,
Os mais hábeis, os mais inertes.
Minha confidência se abre para eles:
É a demolição do minuto pontual,
Da cadeia insustentável de regras,
Dos meus calçados infalíveis
Que respeitaram sempre um certo simulacro.
Bárbaros por uma ausência profana
De ideais e arrependimentos:
O exemplo da rendição inocente.
Deveres à parte,
Costumes exauridos e desígnios à parte,
O branco há de deitar sobre mim.
(Essencial, IN: Duas Chagas)
xxxxxx Pesando e medindo cada palavra, ela responde às cinco provocações
que faço abaixo. Não há sobra, nada é demais. Cada coisa se ajusta em homeopáticas
respostas. Ela não gastou nem 50 palavras, mas já foi mais do Marcelo Mirisola
na edição de março. A dose é sempre pouca, mas cura. Poesia é bom remédio
pra vida.
5 Perguntas
1. O
que é viver de literatura?
É ser um afortunado.
2.
O que é viver para a literatura?
É exercer a virtude do pensamento.
3.
Em que se equilibra a poesia?
No que a palavra silencia.
4.
Escritores não publicados são escritores?
Claro! Só que eles são como a lua no eclipse: estão lá, mas não podem
ser lidos.
5.
A vida cabe em qual verso?
Neste de William Blake, por exemplo: To see a World in a Grain of Sand.