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Fernando Bonassi
Foto: Divulgação.


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Se você é meio desligado ou não guarda bem os nomes, pode ter certeza: você já topou com Fernando Bonassi alguma vez. Quer dizer: já teve diante de si alguma obra dele. Com trânsito fácil na literatura, no teatro, no cinema, no jornalismo e na televisão, Bonassi é dos nomes mais freqüentes nessas produções. Nas melhores produções.

xxxxxx No cinema, foi um dos roteiristas de "Carandiru", "Cazuza", "Castelo Rá-Tim-Bum", "Os Matadores" e "Um céu de estrelas", este adaptado do próprio livro. Isso sem contar os curtas que já dirigiu: o escritor não é nenhum pára-quedista no cinema; é graduado na área. Na televisão, escreveu episódios para os seriados infantis "Mundo da Lua" e "Castelo Rá-Tim-Bum", ambos para a TV Cultura de São Paulo. No teatro, escreveu pelo menos 13 peças, entre as quais "Preso nas ferragens", "Três cigarros e a última lasanha" e os sucessos "Apocalipse 1,11" e "Woyzec, um brasileiro".

xxxxxx No exercício da imprensa cotidiana, escreve desde 1997 para a Folha de S.Paulo, onde exercita a síntese, o estilo e o tratamento literário da realidade. A literatura, então, não se espalha tão só em peças, colunas e roteiros. Ela se materializa em contos, romances e histórias infanto-juvenis em duas dezenas de livros já lançados, o último no final do mês passado (O menino que se trancou na geladeira). Com um currículo como este, muita gente se empolga. A revista Época, por exemplo, já o descreveu como "dono da carreira mais original de sua geração de escritores". Isso há três anos, quando atingia velocidade de cruzeiro.

xxxxxx Paulistano, Fernando Bonassi já tem mais de 40, trabalhou com marketing político, foi ajustador mecânico e office-boy. Já fez muita coisa, mas esconde muito mais atrás dos óculos de hastes grossas. Esteve entre os finalistas do Prêmio Jabuti por conta de um livro, e passou um ano na Alemanha, desfrutando de uma bolsa de estudos. Lá, tinha todo o tempo do mundo para escrever.

xxxxxx A hipocrisia, definitivamente, não é a sua praia. Usa a crueza da realidade como matéria-prima de suas histórias. E elas teimam ser mais realistas que o olhar perfurador do menino no sinal de trânsito. Bonassi gosta de Camus, de Henry Miller e de Graciliano. Não tem papas na língua como o autor de Trópico de Capricórnio. Enfrenta a angústia e o desalento como o franco-argelino e escreve seco-duro-e-justo como o ex-prefeito de Palmeira dos Índios. Ao contrário do personagem de um monólogo seu, Fernando Bonassi não está preso entre as ferragens. Mas sua obra é um crash e tanto.

 

5 Perguntas


1. Quanta crueza a literatura pode suportar?
A literatura pode suportar tudo, especialmente a pior das cruezas, desde que
tratada com estilo e sofisticação formal. Fazemos arte, não política partidária ou
publicidade de miséria.

2. O que há de pior nos livros?
A condescendência com os medíocres de espírito.

3. O que há de melhor nos leitores?
O interesse em exercer uma vida melhor, menos idiota que essa do mundo do trabalho repetitivo e alienante.

4. O que faz um autor: sua obra ou seus leitores?
A obra, claro. Acredito em escrever para não endoidecer, não para agradar quem quer que seja... talvez o meu único leitor essencial seja eu mesmo. Se eu considero bom, tá certo. Se não, é lixo.

5. Por que sua obra se espalha pelo cinema e pelo teatro, para além da literatura?
Venho de uma família de eletrotécnicos e metalúrgicos. Sempre ouvi, e acabei concordando, que você deve pagar as suas contas com o suor do seu próprio rosto. Não vendo muitos livros, não ganho bem com isso, daí ter que amolecer e diversificar meu texto, adaptá-lo a outras linguagens, negociar com "clientes". Dá pra fazer parcerias onde você se enxerga e não se envergonha.

 


Rogério Christofoletti aborda o cotidiano dos escritores e sua relação
com a palavra
através de uma agradável entrevista.
Fernando Bonassi

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