




Foto: Divulgação.
xxxxxx Marçal
Aquino encarna pra valer o ofício de escritor. E isso, no Brasil, significa
fazer muita coisa, matar dois leões por dia, martelando teclas e encaixando-se
no mercado. Ser escritor por aqui não é "apenas" dedicar-se à produção de
sua obra, lançar títulos e dar autógrafos em noites bem regadas. É ter que
construir uma obra a despeito das imensas dificuldades locais; é ter que
atuar como dramaturgo, roteirista de cinema, cronista de jornal, redator
publicitário ou qualquer coisa semelhante. Sempre foi assim: com Machado
de Assis, que trabalhava como jornalista; com Luis Fernando Veríssimo, que
diariamente publica suas crônicas na imprensa; com Marçal Aquino, que se
escreve na literatura, no jornalismo, no cinema...
xxxxxx E ao que tudo indica, Marçal não reclama dessa necessidade de ter que mergulhar na vida e no mundo para beber o que se oferece. Aos 47 anos, esse caipira de Amparo tece uma das trajetórias mais sólidas e conscientes da literatura atual. Já publicou pelo menos treze livros, participou de umas cinco antologias nos últimos vinte anos e venceu dois dos maiores prêmios literários do país, a 5ª Bienal Nestlé de Literatura, em 1999, e o Jabuti, de 2000. No cinema, assinou os roteiros de quatro filmes de destaque: Os Matadores (1997), Ação Entre Amigos (1998) e O Invasor (2001) - todos adaptados de sua própria literatura e dirigidos por Beto Brant - e Nina (2004), roteiro original com pitadas de Dostoievski, dirigido por Heitor Dhalia. Seu trabalho no cinema é tão respeitado que o Sundance Institute o chamou para ser consultor no 4º Laboratório de Roteiros, promovido pelo órgão e pela Rio Filme em 2000.
xxxxxx Mesmo com uma "folha corrida" dessas, Marçal Aquino não se deslumbra e continua a desfiar suas narrativas repletas de personagens com os quais esbarramos todos os dias na rua e sob as marquises. Com olhar de jornalista - afinal, passou pelo "Jornal da Tarde" e por "O Estado de S.Paulo" -, radiografa as realidades retalhadas no cotidiano. Já passeou pela poesia e viveu um tempo escrevendo literatura juvenil. Mas é na narrativa curta e no romance adulto que ele se encontra pra valer. Sua prosa é contemporânea da crueza exposta por Fernando Bonassi e tantos outros. Só que menos visceral. Mais contida. A violência é elemento estrutural de seus personagens e das relações que eles constroem. A violência física e moral, a decadência de valores e o tema da fronteira, do limite geográfico e psicológico. Todos parecem à beira de um ataque de nervos. Prestes a atacar.
5 Perguntas
1.
Onde
mora a literatura?
Do ponto de vista pessoal, a minha mora nas ruas, que é sempre o ponto
de
partida, a centelha para algo que ainda desconheço, mas que tento descobrir
escrevendo. Cenas, gentes, frases, cheiros, gostos. É a minha matriz.
2.
Até onde se pode ir com o fazer literário quando se faz cinema ou televisão?
Literatura e roteiro não se confundem. São linguagens muito diferentes.
O melhor que se consegue, quando se adapta uma obra literária, é estabelecer
um diálogo à altura com essa obra. Acho ingênuo sair do cinema dizendo
"ah, o livro é melhor". O livro é outra coisa. De uma maneira mais pedestre:
literatura é solitário, cinema é sempre coletivo - é igual suruba, precisa
de mais gente pra fazer.
3. O quanto de você os seus personagens roubam a cada linha?
Não é possível manter-se à parte quando se faz literatura. Aqui e ali,
na maioria das vezes de forma inconsciente, entra uma pista, uma idiossincrasia.
4.
Que causa perdida se salva num livro ou por meio dele?
Não acredito que livros salvem causas ou pessoas, nem os tais livros de
auto-ajuda, que, pensando bem, em geral salvam mais os autores do que
os leitores.
5.
O que você vê quando folheia sua obra?
Histórias, algumas até que bem-contadas, outras, a maioria, nem tanto.