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“Eu poderia
ser muito bem representado pelo Pernalonga”
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xxxxxx Curto
e grosso. Marcelo Mirisola não gastou nem vinte e cinco palavras na entrevista
que vem a seguir. Não porque seja um escritor minimalista ou um mestre do
haicai. Não. Ele não quis se mostrar mesmo. Não caiu nas armadilhas que
preparei nas perguntas, nem deu chances para novos lances. Nos emails seguintes,
até tentei outras abordagens e apelei para que fosse “mais bonzinho e respondesse
as questões com mais vagar”. Que nada. Nem foto quis ceder: “Eu poderia
ser muito bem representado pelo Pernalonga”.
xxxxxx O que parece ser preguiça, má vontade ou aversão à mídia, é - a meu ver - uma estratégia bem pensada de quem não quer se desviar, nem se incomodar com os efeitos colaterais que a exposição pode trazer. Mirisola posa de misantropo, e com isso alimenta a fama de mal humorado, maldito e contracorrente. Paulistano que completará 40 no ano que vem, Marcelo Mirisola é - queira ou não queira - um escritor emergente.
xxxxxx Está indo para o sexto livro, dos quais dois são romances. Ele não é nenhum arrasa-quarteirão, mas já está deixando a Editora 34 para figurar no catálogo da poderosa Record. Tudo em pouco mais de sete anos, quando estreou na literatura. De lá pra cá, escreveu contos, publicou uma novela na revista Cult (Acaju, em 2000), participou de antologias, aqui (Geração 90: manuscritos de computador, 2001, Geração 90: os transgressores, 2003) e em Portugal (Putas, 2002); publicou textos em revistas como a Trip (há uns cinco anos), deu entrevista para a Playboy. Claro que não foi aquele entrevistão, mas Mirisola responde às perguntas que a revista faz na edição de fevereiro de 2001, quando a gostosa da vez era a tenista Vanessa Menga; foi resenhado pelos cadernos culturais e por gente como Moacyr Scliar; com isso e mais algumas coisas, o sucesso o transformou em colunista do portal AOL, onde despeja boa parte de sua ira.
xxxxxx Aliás, vem daí o burburinho que acompanha Mirisola. Seus livros são carregados de sexo, violência e escatologia. Suas palavras agridem os ouvidos, fascinam a muitos e despertam - na mesma proporção - desprezo e admiração. Em Bangalô, por exemplo, destila jorros de irritação com certos tipinhos que habitam a Ilha de Santa Catarina, onde o autor viveu por quinze anos. Parece ressentimento, rancor e ódio. Se Mirisola fosse mulher, ele mesmo se rotularia de uma “mal comida”. Por Florianópolis, pouco se comentou sobre o livro. Talvez porque ele tenha sido pouco lido. Ou talvez Mirisola esteja certo no perfil hipócrita que registrou.
xxxxxx Ele é daqueles que parecem querer chocar. Seu sexo é bruto, suas metáforas, murros-no-estômago; seu texto é machista, homofóbico, escroto. Não há histórias, quase nada acontece. Os personagens encarnam nas páginas, e a sua literatura é antes de tudo uma experiência de leitura.
xxxxxx Mirisola vem da mesma família (com mãe conhecidíssima) de Bukowski, Henry Miller, Genet. Num blog perdido por aí, Mirisola posa para fotos numa festa etílico-literária com Mario Bortolotto, o dramaturgo podrão e maldito dos paulistas. Conta a lenda que vendeu um fusca para publicar o primeiro livro, que não tinha computador até pouco tempo e que é um personagem de si mesmo. Difícil acreditar que seja bacharel em Direito. Com tudo isso e quase nada, Marcelo Mirisola não quer mesmo se mostrar, não quer falar de si. Quer mais é que leiam os seus livros.
5 Perguntas
1.
Quanto
vale a literatura?
Menos que uma vida.
2.
Quanto vale a sua literatura?
Quero estar errado: vale mais que minha vida.
3.
Vêem agressividade na sua obra. E você o que enxerga?
Um livro melhor que o outro.
4.
O que ainda resta escrever?
Meu próximo livro.
5.
Onde você quer chegar mesmo?
Ao fim.