Gaveta do Autor - O portal do escritor na rede

Foto: divulgação
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
"Para o escritor de romances, o conto curto é um espirro, uma pulga,
um peido. Para o autor de provérbios, é trabalho dobrado, triplicado"

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -


xxxxxx
Existem escritores de várias espécies: obcecados por um tema, ilegíveis, adulados pela crítica, ignorados pelo público, frustrados, best-sellers, bissextos, performáticos, dispensáveis, experimentais, temperamentais... É difícil categorizar Nelson de Oliveira em qualquer taxonomia. Talvez porque apresente algumas das características acima, mas não se resuma a um conjunto delas, de forma que não se possa carimbar-lhe na testa seu gênero, filo e classe.

xxxxxx Talvez também porque se movimente com rapidez, salte e se agarre a saliências distintas. Não se mimetiza, nem se camufla. Fica aparente, mas não é fácil distingui-lo assim de chofre.

xxxxxx Então, abandono essa pretensão, satisfazendo-me os sentidos de que ele seja mesmo um animal-escritor, desses que fareja histórias, lambe as feridas e se coça, e dorme ao relento no mercado editorial. Reconhece que não vive sem "doses diárias de narrativas", que se alimenta disso.

xxxxxx Astuto, esse animal-escritor deixa rastros entre críticos da área e publicações especializadas. Não publica só em livros, mas também em revistas e jornais, seja em forma de ficção, de resenhas ou críticas. Conhece as novas ninhadas e até organizou duas antologias - Geração 90: manuscritos de computador, Os transgressores -, onde ronda alguns nomes mais recentes.

xxxxxx Mas Nelson de Oliveira já foi um animal desses que vivem em matilhas. No início dos anos 90, juntou-se a outros contistas para formar o grupo Infâmia Literária. Hoje é do tipo que só circula por eles. Com mestrado em Letras e próximo do título de doutor na mesma área, o autor transita com agilidade entre a academia e o público, entre diversas editoras - já publicou mais de vinte títulos em diversas casas: Travessa dos Editores, Record, Beca, Dcl, Boitempo, Publifolha, Hedra, Nova Alexandria, Ateliê, Relume-Dumará, Lamparina, Companhia das Letras...

xxxxxx É de hábitos mutantes. Flerta com romance, ensaio, crônica, novelas infanto-juvenis. Entretanto, não se pode negar que sua toca mais freqüente seja a narrativa curta, o conto. Vive nos cantos. Não é uma fera, mas está longe de ser presa fácil. Afinal, o nomadismo é a condição de sobrevivência dos mais fortes. Instinto? Não sei. Os rastros que deixa não me permitem dizer. O primeiro passo para entender um animal é observá-lo. A distância do olhar dá a medida do meu objeto.

xxxxxx Nelson de Oliveira não costuma sair à caça, mas acumula troféus na parede. Entre as cabeças empalhadas mais cobiçadas estão o Prêmio Casa de las Américas, o da Fundação Cultural da Bahia e o da Associação Paulista de Críticos de Arte. Essas presas deram força aos caninos do escritor, que assumiu sua condição animalesca na literatura. Estreou tardiamente, aos 28 anos, e em espanhol: seu primeiro livro foi bancado pelo prêmio internacional cubano. Alguns de seus títulos estão em prateleiras de Portugal e México, por exemplo. Como se espalha esse animal! Também pudera: a literatura entorta as grades da jaula.

 

5 Perguntas


1. Onde se esconde o novo na literatura?
Na quebra dos velhos hábitos do leitor. Se o sujeito só gosta de soneto, o novo está no modernismo. Se ele só gosta do modernismo, o novo está no soneto. E assim por diante. A novidade é sempre a quebra de confortáveis expectativas. Se o leitor quer a nobreza, a literatura tem que dar a pobreza. Se ele quer o verde, ela tem que dar o vermelho.

2. A narrativa curta é um exercício de que tamanho para o escritor?
Para o escritor de romances, o conto curto é um espirro, uma pulga, um peido. Para o autor de provérbios, é trabalho dobrado, triplicado. Muitos contos curtos são poemas enrustidos, muitos poemas são contos curtos enrustidos.

3. Que sentimento invade o autor quando lê seu nome numa lombada de livro?
Infelizmente, o sentimento da pouca relevância, se a lombada for muito fina. Mas se a lombada for larga, ah, que orgulho. Por vaidade, ninguém confessa, mas os escritores gostam mesmo é das lombadas parrudas, expressivas, arrasa-quarteirão.

4. O que lhe acontece quando se encontra numa prateleira empoeirada de sebo?
Dou-me tapinhas nas costas, como se reencontrasse um bom amigo. Gosto de comprar livros usados, surrados, que bateram e apanharam. Como eu adoro sebos, o sentimento também é de estranha satisfação. Tudo o que está aí, embaixo do pó, parece pertencer aos séculos. Um sebo exala o perfume da canonização. Nesses lugares a poeira e a gordura parecem mais poderosas do que a pureza das edições novinhas.

5. O que se passa com o escritor entre o ponto final de um livro e o primeiro parágrafo do próximo?
O mesmo que se passa com o estômago entre o almoço e o jantar. Primeiro, a saciedade pesada. Depois da digestão, o tranqüilo conforto. Por fim, novamente a fome. A grande fome. Com o estômago, o sexo e os livros é sempre a mesmíssima coisa.

 


Rogério Christofoletti aborda o cotidiano dos escritores e sua relação
com a palavra
através de uma agradável entrevista.
Nelson de Oliveira

Início

Verso

Prosa

Colunas

Notícias

Lançamentos

Multimídia

Concursos

Papel de Parede

Livros grátis

Copyright © Gaveta do Autor
Todos os direitos reservados
gavetadoautor@uol.com.br
Voltar

Livraria Cultura