Gaveta do Autor - O portal do escritor na rede

Miriam Mambrini
Foto: Divulgação.


xxxxxx
Cheguei em casa, mas nem acendi a luz do escritório. De repente, a escuridão se dissipou com a luz azul que a tela do laptop cuspiu. Fiz tudo aquilo com um dedo numa tecla qualquer. A mensagem dela estava lá. Piscando sem parar. Não pude evitar e logo me surpreendi com o que li: "Dos cinco livros que publiquei até hoje, esse foi o primeiro em que cometi um crime". Sim, a confissão veio natural, como se quisesse dizer mais. E disse: "Acho que gostei, pois no próximo, em fase de conclusão, inclui alguns assassinatos, embora num segundo plano". As palavras dela ficaram martelando a minha cabeça. Meus dedos giravam as pedras no copo.

***

xxxxxx Não. O trecho acima não é um caso de Dashiell Hammett. Foi tudo verdade. E aconteceu quando decidi entrevistar Miriam Mambrini, a escritora carioca que chegou ao seu quinto livro, agora um romance policial. Se bem que ela me corrigiria: "Policial por insistência do meu editor". O caso é que o flerte entre escrever e matar é tão intenso e recorrente que nem sei mais se tipifica crime assassinar personagens ou roubar pistas diante dos olhos do leitor.

xxxxxx Na situação em questão, Miriam não se apóia nas muletas da boa e velha narrativa noir. Seu estilo é mais sutil, mais perverso, eu diria. "Meu forte não é o crime e sim as relações humanas, as emoções em conflito, as frustrações e desentendimentos entre pessoas". Os ingredientes são quase as credenciais de um sádico, perfil mais do que distante da senhora que avizinha os 70 anos, escreve desde 1994 e que já acumula prêmios na estante em que divide os livros.

xxxxxx Se antes a atenção se concentrara nos contos, nas narrativas mais curtas, há pelo menos dez anos seus olhos vivos vasculham o universo dos romances. Isso não a impede de cometer alguns contos aqui e ali, em coletâneas. Até porque Miriam parece devotar uma certa lealdade aos relatos concentrados: seus romances nunca são catataus. Na estréia, A outra metade tinha 152 páginas. Quatro anos depois, em 2004, As pedras não morrem tinha 160. Só agora, com O crime mais cruel rompeu algum limite e ultrapassou as 230 páginas. Espontaneamente, como quem se descuida. Crime culposo, atestaria o Espinosa, de García-Roza, ou mesmo Maigret, de Simenon.

xxxxxx É curioso perceber que, para alguns autores, o gênero policial é um caminho de aprendizado. Há quem faça dele exercício e depois abandone essa via, deixando suas impressões digitais em outros gêneros. Ivan Sant´anna fez assim. Mas há quem permaneça e faça dessa vida a morte de muita gente nas suas páginas. Como Patrícia Highsmith, P.D.James e Agatha Christie, para ficar nas mulheres.

xxxxxx É cedo para dizer em que categoria Miriam Mambrini se encaixa. Pelo que me escreveu no email, tomou gosto pela coisa. Mas sabe como é, escritores desta estirpe enganam e iludem com facilidade. Talvez Miriam esteja semeando seu álibi. Melhor não perdê-la de vista.

 

5 Perguntas


1. Que território da escrita é este que chamamos conto?
É um território limitado para a escrita, mas ilimitado para a criação. No espaço restrito de sua forma, há lugar para todas as possibilidades de ficção.

2. Um crime cabe com mais propriedade numa narrativa curta ou num longo e enredado romance?
Um crime cabe numa única bala, num punhal, numa intriga, numa injustiça e em poucas palavras. Mas, nos romances, o suspense pode se prolongar, vítimas e suspeitos têm mais espaço para agirem diante do leitor, confundi-lo, perturbá-lo. Acho que o crime se encaixa mais à vontade em narrativas longas.

3. Qual o crime mais tentador no ofício do escritor?
Matar o próprio escritor e libertá-lo do vício de inventar tramas, construir personagens, buscar palavras que fogem quando mais se precisa delas. Mas cadê coragem? Sem escrever, quem é ele?

4. Não há crime sem corpo, dizem os manuais de direito. Mas se o autor morre e deixa a obra, o que dizer disso?
A obra realizada prescinde do autor, vive por si. Se ela é ou não um crime, cabe ao leitor julgar. E, em caso de condenação, justiçá-la, aprisionando o livro no canto mais obscuro e remoto da estante.

5. A literatura tem que papel na vida agitada e superficial do século XXI?
A literatura, hoje, não passa de uma brecha estreita por onde ainda se pode despertar o leitor para a inquietude, a reflexão, a fantasia. Infelizmente, a falta de tempo e de tranqüilidade, os apelos da vida moderna e o despreparo das novas gerações reduzem essa abertura cada dia mais um pouco.

 


Rogério Christofoletti aborda o cotidiano dos escritores e sua relação
com a palavra
através de uma agradável entrevista.
Miriam Mambrini
Copyright © Gaveta do Autor
Todos os direitos reservados
gavetadoautor@uol.com.br
Voltar

Livraria Cultura

Início

Verso

Prosa

Colunas

Notícias

Lançamentos

Multimídia

Concursos

Papel de Parede

Livros grátis