




Foto: Simone Rodrigues.
xxxxxx O que você esperaria de um respeitado
profissional com uma carreira de sucesso no mercado de capitais e que chega
na casa dos 60? Uma aposentadoria tranqüila? Uma confortável posição de
consultor de negócios? Para algumas pessoas, esse seria o caminho mais comum.
Para Ivan Sant'Anna, não mesmo.
xxxxxx Self made man, esse carioca passou quase quarenta anos de sua vida de olho na movimentação dos gráficos das bolsas de valores, sinalizando as melhores opções de investimento, desviando das armadilhas e das oscilações vertiginosas do mercado de capitais. E assim, como numa virada de cabeça, deu uma guinada na vida: tornou-se escritor, estreando na literatura com Rapina, em 1996. O romance mescla dois submundos que pouco ou quase nunca se interpenetram: o banditismo de seqüestradores nos morros cariocas e o gangsterismo das altas rodas de especuladores das bolsas.
xxxxxx De imediato, Ivan Sant'Anna foi comparado a John Grisham, o norte-americano que devassa o sistema jurídico com best-sellers que migram para o cinema, a exemplo de A firma. Pelo menos três motivos aproximavam o financista do escritor de arrasa-quarteirões: a linguagem clara, o estilo envolvente e a intimidade com uma área de atuação que poucos se atrevem a mostrar. Os parentescos param por aqui.
xxxxxx Sant'Anna foi além. Caminhou mais um pouco sobre a ficção, mas deu novo drible e caiu num gênero que muito se aproxima da reportagem. Com um faro característico de jornalistas, o escritor identificou boas histórias para contar e mergulhou fundo para poder narrá-las. E isso não é mera força de expressão: para escrever Carga Perigosa, viajou por seis mil quilômetros de estradas brasileiras em quinze dias. Para escrever Plano de Ataque - que conta as histórias dos vôos do 11 de setembro -, ele se debruçou sobre 17 mil páginas de anotações pessoais e transcrições de documentos.
xxxxxx Aliás, com esse livro, Ivan Sant'Anna completou dez anos de carreira como escritor. Nada mal para um jogador como ele. Sim, é isso mesmo. Sant'Anna deixou os pregões, mas seu espírito continua o mesmo: aposta em histórias delicadas; arrisca-se em assuntos complexos; especula ligações improváveis. Quem olha o senhor pacato, com cabelos totalmente brancos e fala mansa, não imagina seu espírito juvenil, seu instinto aventureiro, sua forma irriquieta de ser. E quando a gente pensa que ele está acomodado em algo, leva mais um susto: já está tramando uma nova virada. Quer ver? Ivan Sant'Anna começou do zero de novo: agora, também é roteirista de TV...
5 Perguntas
1. Que desafios a ficção traz que a nossa
suposta realidade não oferece?
A realidade supera a ficção, que não
ousa exageros como dois Boeings se chocando contra as torres gêmeas.
2. Por quais territórios viaja a mente
de um escritor-voador?
Minha mente está sempre no livro que
escrevo, mesmo que o último que escrevi ainda não tenha sido publicado.
Quando Caixa-Preta foi lançado, eu só pensava em caminhões (por
causa do Carga Perigosa). Ao sair Plano de Ataque, eu já
entrara para o mundo do crime porque, desde 25 de janeiro, sou um dos
roteiristas de "Linha Direta". Mais do que um escritor-voador, eu sou
um escritor-aventureiro.
3. A batalha entre as palavras e a tela
em branco é maior que a travada no mercado financeiro?
Jamais tive problemas com tela em branco. Eu penso com os dedos. Mas
já sofri muito com texto ruim. No mercado financeiro eu sempre fui um
jogador. E continuo jogando na literatura.
4. Quais os investimentos necessários
para a boa literatura?
Ler muito, ler sempre, ler autores melhores do que você. O investimento
é em tempo, não em dinheiro.
5. Se a mente do escritor fosse uma caixa
preta, que dados ela revelaria?
A solidão de estar longe, no espaço e no tempo, do leitor.