




Foto: Bel Pedrosa.
xxxxxx Dez
mil e setecentos quilômetros separam Manaus de Beirute. A imensa distância
entre a Amazônia e o Líbano; a intensa lonjura entre a floresta tropical
sem-fim do Oriente Médio infinito de histórias. Mas apesar desse abismo,
já existe uma ponte que une realidades tão longínquas e distantes: a literatura
de Milton Hatoum.
xxxxxx Martelando as teclas, o homem publicou até agora apenas três livros, o suficiente para ganhar prêmios de grande prestígio e inscrever-se entre os mais importantes nomes da literatura nacional. Nascido na capital do Amazonas em 1952, Hatoum contraria o biótipo do nativo. É alto, ombros largos, cabelos esbranquiçados em desalinho; sobrancelhas pronunciadas, nariz levemente curvo, olhos amendoados; semblante pacífico, mais para o Nacib de Jorge Amado que os amazoninos de Marcio de Souza. Aliás, desde o autor de Galvez Imperador do Acre, o norte brasileiro não tinha um escritor tão (bem) comentado, tão (atentamente) lido.
xxxxxx Hatoum estreou aos 37 anos com Relato de Um Certo Oriente, e já de cara abocanhou o Prêmio Jabuti de Melhor Romance em 1990. Quem pensava que o autor passaria a cuspir obras tal qual uma impressora desvairada, surpreendeu-se mais uma vez. Demorou mais onze anos até lançar Dois Irmãos, que chegou a ser finalista do Jabuti, mas "perdeu" para Domingos Pellegrini, com O Caso da Chácara Chão. Mesmo assim, foi considerado pela imprensa especializada como o melhor romance dos últimos quinze anos, sendo publicado em dez países em três continentes. Em 2005, veio à tona o terceiro título, Cinzas do Norte, que ganhou o Jabuti de Melhor Romance e o Grande Prêmio da Crítica da APCA.
xxxxxx Arquiteto de formação e professor de Literatura, Milton Hatoum pesa e mede as palavras, depois as aplica com delicadeza nas páginas, anotando nós entre as frases, salpicando seus enredos com temperos amazônicos e fragrâncias orientais. Seus personagens se erguem das entranhas da terra e trazem consigo raízes dilaceradas, segredos e desejos impronunciáveis. As tramas têm urdimento envolvente, garantindo camadas e mais camadas aos seus romances.
xxxxxx A leitura de Hatoum pode lembrar outros dois nomes da literatura nacional: Salim Miguel, de Nur na Escuridão, e Raduan Nassar, de Lavoura Arcaica. Ainda mais o último, que também faz brotar dos laços familiares os mais primitivos sentimentos e as mais ancestrais narrativas. O clã libanês de Nassar marcado pela parábola do filho pródigo ecoa num timbre diferente na família libanesa incrustada na Amazônia, perigosamente à deriva por conta de Esaú e Jacó, quer dizer, Omar e Yakub. Entretanto, as ressonâncias ficam no aparente.
xxxxxx Nassar publicou três livros e foi criar galinhas no interior de São Paulo. Hatoum também veio para São Paulo, mas insiste em permanecer na metrópole. Publicou a mesma quantidade de livros, mas pelos indicativos, não pretende parar tão cedo.
xxxxxx Entre homens ajoelhados em direção a Meca, curumins e cunhatãs; entre tragos do Daime e baforadas de narguilé; entre as lendas dos espíritos da floresta e as mil e uma noites, Hatoum esculpe um singelo monumento de apreço por dois mundos. Na expatriação, na figura do mestiço e nas fronteiras porosas de nossos territórios imaginários, o escritor assinala seu xis no mapa da literatura contemporânea. Arquiteto de sua trajetória, ele desenha uma ponte entre dois mundos, feita de imagens e palavras.
5 Perguntas
1. Qual
é o Norte pelo qual o escritor se Orienta?
O desnorteio: a falta de sentido
nas vidas inventadas, que acabam em cinzas.
2. Vencer a tela em branco é um exercício
de que ordem?
Caos com disciplina. Cada frase
é parida pelo imprevisível e depois reescrita pela razão. A síntese é
a (des)ordem da linguagem.
3. Como pode uma atividade tão solitária
quanto a escritura atingir com ênfase a coletividade ?
Quando o texto de ficção acerta
na veia, os dramas, paixões e conflitos dos personagens são introjetados
pelo leitor.
4. Escrever ainda é "cortar palavras"?
Às vezes é acrescentar: Proust, Balzac,
Stendhal, Pedro Nava, Salman Rushdie, António Lobo Antunes...
5. Que lugar ocupam os escritores num
mundo preenchido de intolerância, pressa e automatismo?
O lugar (cada vez mais exíguo) da
crítica à intolerância, à pressa, ao consumismo desenfreado, à banalidade
e à injustiça.