




Foto: Renata Stoduto.
xxxxxx Não foi a ciência
quem comprovou, mas os críticos e os leitores: poesia pode ser genética.
Pelo menos é o que se percebe com Fabrício Carpinejar, que já junta dez
livros em sua mochila e acumula na estante prêmios como o Fernando Pessoa
(União Brasileira de Escritores), o Açorianos de Literatura, o Cecília Meireles
e o italiano Marengo D' Oro (Itália). E ele estreou não faz nem dez anos...
xxxxxx Carpinejar tem versos correndo nas veias. É filho do poeta, ficcionista, crítico e tradutor Carlos Nejar, imortal da ABL que verseja há quase meio século. Sua mãe, Maria Carpi, também publicou poemas e desde muito cedo o gauchinho de Caxias do Sul respira lirismos. Apontado como um dos principais poetas brasileiros contemporâneos, Carpinejar é incensado por pesos-pesados como Carlos Heitor Cony e Antonio Skármeta, entre outros. Mas não liga. Fica preso mesmo é entre rimas tortas e versos de pé quebrado.
xxxxxx Confessadamente esquisito, Carpinejar abraçou a literatura como quem se apega à única coisa segura na vida. Abraço de afogados. Ambos vão cada vez mais para o fundo, para o fundo de si, num mergulho infinito. Para o menino estranho, feio e desajeitado sobravam sentimentos e notas baixas nos ditados. Mas quase nunca se coloca ponto final em poema. Por isso, foi adiante: deixou as botas ortopédicas pra trás e aos sete anos escreveu seu primeiro poeminha. Depois foi impossível parar: estava no sangue, no coração.
xxxxxx Estudou, formou-se em Jornalismo, pós-graduou-se em Literatura. Teve amores, teve filhos e pariu alguns volumes de poesia. Na verdade, pariu a si mesmo, quando se rebatizou: Fabrício Carpi Nejar tornou-se Fabrício Carpinejar. Não é só o casamento dos sobrenomes dos pais, separados desde a sua infância. É uma brincadeira poética, um jogo de palavras, um flerte entre o carpir (arrancar) e o carpintejar (trabalhar como carpinteiro). O escritor poetiza o próprio nome, como fez Glauco Mattoso, que sofre mesmo de glaucoma. Mas ele desconversa: "Mudei de nome para não desonrar a família". Capaz!
xxxxxx Para Carpinejar, a poesia não é um crime premeditado, mas passional. "Não sou capaz de dizer: vou escrever um poema. Escrevo como quem existe. Ninguém hesita em existir". Registra em seus Antecedentes Criminais Poéticos: "É uma explosão de nervos, de música e de pensamento. Surge de um ato solitário, intransferível e altamente singular. Significa matar o amor para que ele sobreviva sem a pieguice. Desbastar o poema para que só fique o essencial. O verso é como uma escultura: o rosto está lá dentro, sendo preciso descobri-lo extraindo pedra".
xxxxxx Mas deixe a poesia flanar e voltemos à ciência. Carpinejar é uma prova biológica de que a poesia pode ser genética, que se adapta às adversidades e evolui. É uma demonstração contundente de que a poesia é virótica e altamente contagiosa.
5 Perguntas
1.
Como
oxigenar a poesia, sempre tão asfixiada por clichês e rimas fáceis?
Mergulhar
fundo na linguagem, não se importando se vai faltar ar lá embaixo. Henri
Michaux diz que a alma não voa, a alma nada. Concordo com ele. O poeta
não pode se sentir dono de uma voz. Ela mais será dele quando mais lhe
faltar. O erro é a casa da verdade. Subverter o lugar-comum, sair do jogo,
do trocadilho, do jogral. Falar só quando se tem necessidade, quando é
impossível adiar. A verdade não é um hábito como a mentira, a verdade
rompe hábitos. O poeta é a instabilidade cardíaca. Concorda para discordar
logo em seguida. Não conheço nenhum poeta aposentado. Ou se é para trabalhar
toda a vida ou nunca foi.
2. O que existe entre um verso e outro?
O
poema perfeito, que não foi lido, porque estava apressado em escrever
o meu.
3. Por que o poeta foge da prosa?
Por
educação, para não contaminar. A poesia costuma bagunçar, anarquizar a
linguagem. O poeta não sabe escrever sentado. Escreve de pé, para não
ser enterrado. Ele quer comunicar de cara o ruído, o espanto, o relâmpago.
Ele é ansioso por vocação. Escreve com os ouvidos. Sua audição é de socos.
4. Que tipo de bem fazem prêmios e honrarias
aos escritores?
Cartas
dos leitores. Sinceridade e comoção. Conseguir uma tal identificação,
que o leitor esquece o meu nome e toma aquilo que foi escrito como seu.
Ser esquecido é o maior prêmio que um autor pode alcançar.
5. Que tipo de prazer é o ofício do escrever?
O
de gargalhar. Não o riso cínico, o riso enviesado, o riso contido. Mas
o riso que joga o corpo para frente, que nos põe caminhar. Enquanto dois
dedos batucam, os outros oito já são platéia.