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Mario Prata
Foto: Site oficial, autorizada para reprodução.


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Ele bem que poderia ser um de seus personagens. Não é alto, é até magro, com uma cabeleira armada, salpicada de branco. Os braços magrelos, os dedos da mão arqueados, arqueados para acomodar um ou mais cigarros. Tem quatro olhos. Dois deles não enxergam muito bem. A boca permanece fechada na maioria do tempo, mas quando desmancha a seriedade, projeta não só o sorriso de boca nervosa, mas também um chiste, um drible de palavras.

xxxxxx Mario Prata é uma figura tão engraçada e divertida como as pessoas que inventa em seus livros. Uma vez, fiquei olhando o homem ancorado no balcão do Café Matisse, um bar cultural de Florianópolis. Eram os momentos que antecediam uma apresentação teatral num festival do qual Mario Prata era jurado. Alguns amigos se aproximavam, mas ele não podia cumprimentá-los com as mãos ocupadas. Numa delas, o indefectível cigarro. Noutra uma tulipa de chope, transpirando mais que o contra-regra nas coxias. Educado e prestimoso, Mario se inclinava para beijar as amigas. Diante dos amigos, arqueava os ombros e avançava num abraço efusivo, quase queimando o colarinho de alguém ou mesmo derramando alguma coisinha da gelada.

xxxxxx Minutos depois de consultá-lo sobre esta entrevista, respondeu-me num e-mail econômico e contundente: "manda". Mandei as perguntas, e ele quase me enganou. As respostas vieram rapidamente e num tom quase acadêmico, protocolar, levando-se tão a sério que o próprio Mario Prata riria de si mesmo, naquela voz de caverna.

xxxxxx Mas como acreditar no cara? O autor de histórias debochadas, de telenovelas cômicas estudou pra ser economista e realizou o sonho de dez em dez avós: passou no concurso do Banco do Brasil! Aliás, trabalhou do lado de lá do balcão por anos, quando ainda ostentava o nome pomposo de Mario Alberto Campos de Morais Prata. Depois, o mineiro de Uberaba foi cedendo a uma vocação incontornável: escrever.

xxxxxx Do final dos anos 60 pra cá, borboleteou por todas as áreas onde pudesse exercer o que considera ofício e não dom ou sopro das musas. Produziu 26 trabalhos para TV, de telenovelas a minisséries, no Brasil e em Portugal; escreveu 14 peças teatrais, 18 livros para adultos (entre romances, crônicas e contos) e cinco para o público infanto-juvenil. Participou de pelo menos oito coletâneas literárias e martelou as pretinhas num sem-número de roteiros para cinema e vídeo. Trabalha esse cara, hein?

xxxxxx Nos últimos anos, realizou um sonho de dez em dez escritores: morar numa ilha para escrever e viver de livros. Tá certo que não é nenhuma ilha deserta, é Florianópolis, a varanda mais bem acabada do Paraíso. Fazer o quê? Mario Prata já foi premiado várias vezes, encabeçou listas de mais-vendidos e voltou às telenovelas recentemente com Bang Bang, na Rede Globo. Muita gente não entendeu a verve ácida e ágil dos diálogos de Prata antes do Jornal Nacional. Ele deve sorrir um sorriso sacana quando lê isso nos jornais. Aí, acende um cigarro e manda ver no teclado. E faz isso sem pudor.

xxxxxx Em 2000, escreveu uma comédia policial inteira na web, sob o olhar de quem quisesse acompanhar. Em seis meses, escreveu e reescreveu "Os anjos de Badaró", aceitando uma sugestão de leitor aqui, ignorando outra ali. A experiência foi divertida. Foi diferente. Que nem o Mario. Sabe o Mario?

 

5 Perguntas


1. Na vida de escritor, qual a pior tecla?
Sem dúvida nenhuma, a de deletar. Principalmente quando o texto
tem um limite de dígitos. Estou escrevendo agora um folhetim para o Estadão e tem que ter 6 mil dígitos. Sempre que termino o capítulo, percebo que está com quase 8 mil. Aí, entra a tesoura/del. Dói, embora o texto fique sempre mais enxuto.


2. A frase de um personagem traduz que dimensão do autor?
Sim e não. Existem personagens muito próximos do autor, embora o trabalho seja de ficção. E outros que trabalhamos por pesquisa. No mesmo folhetim citado, precisava de uma sessão espírita e de uma médium, pedi ajuda para uma escritora espírita. Eu não tinha dimensão para aquilo. A médium disse coisa que eu jamais escreveria.

3. A autoria colaborativa não dilui o estilo do escritor?
É raríssimo eu trabalhar com colaboradores. A não ser em novela. Não dá para escrever 42 páginas todo dia. Não apenas dilui como dá um trabalho danado ficar reescrevendo o texto deles para o trabalho ter um mínimo de unidade narrativa.

4. Quando e onde nascem os livros?
A qualquer momento e em qualquer lugar. A cabeça do escritor não pára. Não adianta tentar tirar férias. Tu tá lá numa boa e vem uma idéia. Tu tenta afastar a danada, mas ela fica martelando. Acabaram as férias. Mas tenho certeza que é este o momento sublime da criação de um livro, ou um conto, ou mesmo crônica. Quando surge a idéia. Uma idéia de uma linha (são sempre as melhores) que você sabe que vai te dar um trabalhão danado. Ter uma boa idéia é quase um orgasmo. Quando não tenho como anotar, ligo para a minha casa e deixo na secretária eletrônica. Praticamente lembro do momento e onde estava de quase todos os meus livros. São momentos marcantes no ofício.

5. Como e por que morrem os autores?
Antigamente morriam de tuberculose, né?

 


Rogério Christofoletti aborda o cotidiano dos escritores e sua relação
com a palavra
através de uma agradável entrevista.
Mario Prata

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