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Cristovão Tezza
Foto: Divulgação.


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"É sem acento, tá? Sou um erro ortográfico". A piada encontra o riso só do outro lado da tela. É num e-mail curto que ele responde às cinco perguntas. Um punhado de questões, um punhado de palavras encadeadas em frases curtas, marteladas quase. Cristovão não tem acento, só til.

xxxxxx E mesmo que o corretor ortográfico do computador insista, o escritor força o caminho de volta e retira o penduricalho. Cristovão Tezza não tem acento, e ele brinca com a sua condição: é um erro. Semanas depois, fui entender. Acento pra quê? A tonicidade já está lá, não precisa marcar. Mas a falta incomoda... afinal, ela denuncia um fantasma: algo que está por ali, mas não se vê. Ouve-se apenas.

xxxxxx Com ele, não poderia ser diferente. Cristóvão Tezza lida com fantasmas o tempo todo: são seus personagens que habitam histórias dentro de histórias; são as lembranças líquidas de uma cidade-natal deixada e só reencontrada quarenta anos depois; são pensamentos, palavras e visões que misturam na composição de um mundo, multifacetado pela linguagem e por sujeitos fugidios e descentrados.

xxxxxx Tem trinta anos de carreira, onze romances no bolso. Mas transita ainda pelo conto, pelo teatro, por ensaios literários e até mesmo por livros didáticos, onde mantém uma parceria com o lingüista Carlos Alberto Faraco. É professor universitário em Curitiba, mas já foi ator de teatro, relojoeiro e datilógrafo. Já foi alternativo e essa experiência, de alguma forma, contamina/alimenta sua produção literária. O tema da existência lateral à sociedade é um tema recorrente na sua obra, vai escrever um jovem e influente crítico. Fantasmas. É desses escritores que tentam conter os rios dos discursos: às vezes, fica insone por causa de uma frase mal colocada. Não é preciosismo, é um instinto de sobrevivência. O mesmo ímpeto que o leva a sebos em busca dos próprios livros. Principalmente os primeiros. Quer recolhê-los. Fantasmas.

xxxxxx Nasceu em Lages (SC), mas partiu quando ainda nem tinha dez anos. Isso faz diferença. Quem nasce na cidade serrana, não se diz catarinense, mas lageano. É um orgulho, é uma desterritorialização. Veio lageano, mas tornou-se curitibano. Mais um pintor daquelas paisagens, ao lado de Dalton Trevisan e Paulo Leminski. Bem acompanhado por fantasmas vivos e mortos.

xxxxxx Cristovão Tezza é bem-assombrado por prêmios. A Biblioteca Nacional lhe deu o Machado de Assis; a Academia Brasileira de Letras veio com o de Melhor Romance de 2005 por causa de O Fotógrafo. Por pouco não levou o Portugal Telecom. O quase é um fantasma de cinco letras. Professor e escritor, o homem é mimado pela crítica e reverenciado por um público respeitoso, o que lhe rende edições extras de seus títulos. Sujeito na escrita, já foi objeto de dissertações e monografias. É o escritor escrito. Espelho: o auto-retrato do fantasma. Cultuado especialista de Mikhail Bakhtin, Tezza leva a sério o dialogismo. É por isso que ninguém me tira da cabeça que ele conversa com todos esses fantasmas.

 

5 Perguntas


1. Onde mora a autoria?
Na solidão.

2. Como é possível ser autor numa época em que se inventou tudo?
Mas não se disse tudo.

3. Escrever é fazer da vida o quê?
Trazê-la à tona, fazê-la à toa. Algo assim.

4. Ler ajuda o que na vida?
A transcender, sair do chão, habitar mundos paralelos, duplicar-se, sentir o silêncio.

5. Se a literatura é uma bússola, onde fica o seu norte?
Sinceramente, não sei ainda.

 


Rogério Christofoletti aborda o cotidiano dos escritores e sua relação
com a palavra
através de uma agradável entrevista.
Cristovão Tezza

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