




Fotos: Divulgação.
xxxxxx Nem
a notoriedade crescente nem o acúmulo de trabalho separam Miguel Sanches
Neto do mundo real. Diferente de outros escritores, ele responde e-mails
pessoalmente, e sem demora. Mesmo com a pressa de quem está com a mala na
porta, escreve com cortesia e cuidado.
xxxxxx Nas magras linhas, o volume da voz é baixo, o tom, suave. O Miguel-professor está de viagem para duas bancas de mestrado e promete responder minhas perguntas quando voltar. Eu espero. Mas não muito: em quatro dias, minha caixa postal pisca com suas respostas... Leio apressado e percebo que quem responde é um Miguel na tentativa de se unificar, como se quisesse domar o Miguel-escritor, o Miguel-crítico, o Miguel-professor.
xxxxxx O Miguel-escritor já despejou sete livros nas estantes nacionais. E fez de tudo: contos (Hóspede Secreto, 2003), crônicas (Herdando uma Biblioteca, 2004), romance (Chove Sobre Minha Infância, 2000), cartas (Você sempre à minha volta, 2003), crítica (Biblioteca Trevisan, 1996, Entre Dois Tempos, 1999) e até haicais (Abandono, 2003). E se prepara para lançar nos próximos meses mais um de poesias: Venho de um país obscuro. A produção farta e recente permite pensar que estava acumulada. Pode ser. Talvez a falta de tempo, pois parece que o Miguel-escritor só trabalha nas férias de verão, num quarto sem janelas, trancado entre seus pensamentos dez horas por dia.
xxxxxx Eu disse férias de verão, porque o Miguel-professor leciona na Universidade Estadual de Ponta Grossa, onde carrega a cruz do magistério. Não bastasse isso, o Miguel-crítico assina coluna na Gazeta do Povo, de Curitiba, e há um ano na revista Carta Capital. Aliás, a carreira de crítico ajuda e atrapalha o Miguel-escritor. Ajuda porque permite viver a literatura na condição de leitor profissional, o que facilita a compreensão da carpintaria; atrapalha porque o crítico é quase um leproso: muitos repudiam a sua presença, outros ficam cheios de dedos e todo o mundo aponta quando ele é visto em público.
xxxxxx Um dos escritores mais celebrados dos últimos tempos, Miguel Sanches Neto ganhou dois prêmios nacionais: o Luis Delfino de Poesia (1989) e o Cruz e Sousa com seus contos em 2002. E sempre que ganhou vestia pseudônimo. O Miguel-escritor deve culpar o Miguel-crítico por isso. Afinal, os júris de concursos literários são sempre compostos por outros escritores, gente que ele resenha por aí e que pode ficar chateada com o que lê. Se é verdade ou não, tanto faz. Prestes a completar 40 anos, casado e com uma filha de 10, Miguel - um autêntico 3 em 1 - segue a vida. Dentro e fora da literatura.
5 Perguntas
1.
Você também atua na academia e na crítica. Como analisa, então, a sua
obra?
Analisar a própria obra em termos de relevância é difícil, o que posso
fazer é tentar ver a posição dela dentro da literatura contemporânea.
Acho que é uma produção diferente, pois investe em alguns conceitos literários
que não são ditados pela moda. Em ficção, a moda quer narrativas urbanas,
tratando de violência, de situações cosmopolitas, de posturas agressivas
etc., sempre em uma linguagem em que as firulas imperam. Minha ficção
é lírica e direta, joga a ação sempre para a frente, trata de temas que
são tanto urbanos quanto rurais. Na poesia, criou-se uma dicção minimalista,
fragmentária, hermética, bem-pensante, quando o que produzo são poemas
que tendem para o extenso, a prosa e o lirismo, numa valorização das experiências
vividas e não das posturas intelectuais. Na crítica, sou um leitor apaixonado,
quando nossos críticos preferem ser cientistas de laboratórios imaginários.
Vivo na contramão, não por gosto de polêmica, pois, como todos, quero
ser aceito, mas por acreditar que só existe um Miguel Sanches nesta latitude
e tudo que eu fizer fora dela seria mentira, um desrespeito a mim e aos
leitores.
2.
Com que familiaridade você trata o seu leitor?
Em tese, na hora de escrever, não existe o leitor, apenas o texto, e o
texto corre para onde ele quer. Eu escrevo sem pensar se estou agradando
o grupo x ou y, escrevo apenas o que penso, o que sinto, o que me inquieta,
sempre num ato de explosão, de indignação, nunca de forma calculista.
Ignoro o leitor neste momento. Depois, sou muito atencioso. Talvez seja
um dos poucos escritores que responde todos os e-mails, cartas e cartões,
gasto em média duas horas por dia nisso, pois respondo 30 e-mails diários,
sempre tentando respeitar o leitor. Evito apenas o leitor que quer me
perturbar, mas mesmo assim respondo pelo menos uma vez a mensagem dele.
O leitor é uma entidade essencial, pois cada vez mais, pela vaidade, estamos
virando uma sociedade de emissores, sem receptores. Devia haver uma remuneração
governamental para quem apenas lê.
3.
Para onde caminha a produção literária nacional?
Para várias direções, pois vivemos um momento em que não existe mais uma
cultura do gosto, mas inúmeras subculturas - tudo virou tribal, você pertence
à tribo tal. O alvo mais comum, no entanto, não está no plano estético,
mas no financeiro: todo escritor, seja um poeta experimental ou um romancista
policial, quer ganhar grana com seu trabalho e ter uma vida dedicada à
fruição da glória. Isso faz com que a literatura seja uma réplica da ilha
da revista Caras - todos querendo aparecer a qualquer custo.
4.
De que forma a Internet pode modificar (se já não o fez) os hábitos e
os processos de leitura e escrita?
Já modificou essencialmente os dois - pois tornou tudo mais rápido, mais
superficial. A escrita atingiu uma velocidade imensa, o que é positivo,
pois escrevemos com mais leveza, com mais freqüência, com mais irresponsabilidade.
Por outro lado, o leitor dedica menos tempo ao nosso texto, lendo rapidamente.
Em compensação, ele lê mais, mais autores e mais obras, com um proveito
talvez menor, mas com uma maior visão de conjunto. Toda mudança tem coisas
boas e ruins, a Internet também - está possibilitando a entrada de vários
'autores' que escrevem em sites e fotologs, gente que não teria acesso
ao sistema editorial. Houve, portanto, uma democratização e uma fragmentação
do mercado. O que vai ficar disso é que não sabemos, mas com certeza será
uma pequena parcela. Com a Internet, a mídia que era dominada pela imagem
volta a valorizar a palavra, uma palavra fluida, ligeira, mas que representa
uma valorização do código escrito. Então, acho que vivemos uma retomada
da palavra escrita.
5.
O que não cabe na sua obra?
Não cabem coisas como fingimento, simulação, diplomacia e idealizações.
Sou um escritor que fala o que pensa, com um olhar desmitificador e inconformado.
Se você quer uma escrita sem posicionamento, não a encontrará em meus
textos. Tudo que escrevo é uma tomada de partido. Por isso eu tenho uma
capacidade para fazer amigos ou inimigos. Basta escolher um dos lados.