




Foto: Felipe Zig
xxxxxx As artes em geral e a literatura em particular parecem fazer
o jogo do esconde e mostra. Em tempos de avalanches de notícias e imagens,
de explosão sígnica e de estresse informacional, resta às artes e à literatura
não mais um lugar, mas um tipo de movimento, um gesto, um traço.
xxxxxx Neste jogo de vai e vém, a literatura brasileira conta com um player especial: João Gilberto Noll é experiente, vigoroso, contundente e irrequieto. Em quase trinta anos de carreira, escreveu treze livros, ganhou cinco Jabutis, foi adaptado para o cinema e para o teatro. Seus volumes foram publicados na Argentina, Itália, Alemanha, Inglaterra e nos Estados Unidos, e sua obra despertou o interesse da academia na forma de teses e dissertações.
xxxxxx Entretanto, esses predicados compõem apenas a parte visível de um trabalho que parece se erguer sem o apoio de nada. Como o personagem que se levanta agarrado à barba e aos cabelos, a literatura de Noll se sustenta nos próprios movimentos, nos deslocamentos que provoca. Ele mesmo admite que seus personagens estão sempre em trânsito: ou fogem ou perseguem objetos que sempre se lhe afastam. Como as palavras dos astecas, eles caminham, arrastam-se de casa em casa no tabuleiro ficcional. Mas não fazem isso diante de nossos olhos o tempo todo. A escrita em primeira pessoa de Noll se transmuta, se traveste, assume e abandona vórtices narrativos. Mas sem avisar. Como quem escreve por lacunas, como quem salta os mares que separam as ilhas.
xxxxxx Os sujeitos de Noll se conjugam deliberadamente no plural. Suas imagens são embaçadas, difusas. A opacidade reinante suspende as amarras dos personagens, permite câmbios de foco, projeções, confusões entre o sonho, a imaginação e a realidade. O leitor se perde, esfrega os olhos, sacoleja a cabeça: sente-se bêbado, zonzo e quase-sempre tenta se reorientar na frase anterior, como se buscasse uma zona estável.
xxxxxx Neste sentido, não é exagero dizer que a literatura de João Gilberto Noll seja vertiginosa. Mas não porque queira, porque seja afeita a acrobacias espetaculosas. Não. A tontura se causa e se sente porque sua escrita se faça e se refaça no constante movimento, no deslocamento das palavras, no próprio funcionamento da linguagem. (Existe algo mais intangível e virtual que a palavra?) A vertigem se causa e se sente porque sua literatura se ocupe da inacabável tarefa de tentar compreender a subjetividade humana. (Existe algo mais exaustivo e necessário que isso?).
5 Perguntas
1. De que forma se pode falar hoje de literatura regional ou de escrita
universal?
Pode-se falar, sim, simplesmente
porque ainda reina nas províncias brasileiras esse dogma de que tudo o
que vem do espírito regional é o melhor para a educação do leitor. Tudo
o que emana de sua própria aldeia chega a bom lugar literário, a um certo
abrigo de ouro. É essa mania pseudo-pedagógica que assolou parte do Romance
de 30 e que ainda perdura em certos corações. Graciliano é maior do que
qualquer tendência mestra dos anos 30, mesmo quando ele parece indicar
o localismo como o palco privilegiado da autenticidade social. Em "Angústia",
porém, ele escolhe os arrabaldes do Brasil para delinear vidas dignas
dos dramas dostoievskianos. Ao relatar os tormentos de um homem enjeitado,
ele usa técnicas de monólogo interior ainda não aterrisadas em solos distantes
das grandes capitais naquela época. Hoje, por todos os motivos óbvios
da mundialização, o imaginário paroquial, com todos os seus meneios pitorescos,
cede lugar ao não pitoresco, ao não determinado, ao difuso e confuso.
2.
O que não cabe num conto?
O que não cabe num conto? A descrição
naturalista do entorno. Essa descrição do ambiente, com seus ilusionismos
realistas, falseia a atmosfera contemporânea que vive em franca diluição
pictórica, mesmo quando refeita com os desmanches das tradições nativistas.
3.
O que sobra num romance?
O que sobra no romance é a pirueta
vanguardeira. Se quiserem ser excessivamente ousados na forma, procurem
o conto. O romance, por mais delirante que seja, não pode ficar incitando
a desatenção do leitor. Não podemos esquecer que vivemos um período do
tal déficit de atenção. Se esse déficit suplantar o desejo pela linguagem
da narrativa longa, os escritores e leitores estarão fritos, porque não
terão mais a herança da epopéia que o romance representa. E se pode viver
sem alguma destinação épica no nosso imaginário?
4.
Que lugar a sociedade reserva para os escritores hoje em dia?
Olha, há muito deixei de exalar queixas
quanto a relação doída do escritor com o ambiente social que o produz.
Mas, saindo das questões materiais, acho que o escritor de um modo geral
não se alinha muito com nada, não é? Ele procura uma diferenciação incomum,
algo que não está nem na fantasia egóica nem na inserção conformista ao
coletivo. O artista em geral não sabe o que quer. Meus protagonistas,
por exemplo, vivem a fugir, ou vivem investigando o impossível que se
afasta cada vez mais de seus passos. No entanto é preciso seguir. A relação
do escritor com o social me parece parecida a certos filmes de Charlie
Chaplin. A cada nova quadra tem um policial que lhe faz tremer no seu
recôndito. Esse temor é uma espécie de obscenidade calada, pois dele pode
vir mais graça para a tarde ensolarada. Essa vigília sisuda da polícia
pode alimentar a arte. Com certo humor e muita fantasia.
5.
Que lugar o escritor João Gilberto Noll não desejaria ocupar?
O meu problema maior é que não tenho
muita vontade de ocupar lugar nenhum fora da minha literatura. As pessoas
íntimas minhas sabem exatamente do que estou falando e não me desmentiriam.
Aliás, pago um preço por vezes medonho, por ter optado por esse caminho,
como você bem pode imaginar, partindo do pressuposto de que vivemos num
país como o Brasil. Mas melhor do que tudo é mesmo o amor sem a mediação
de qualquer literatura.